• No products in the cart.

Polifonia em peças jurídicas e a conjunção “que”

A polifonia ou intertextualidade é uma das características dos textos jurídicos, principalmente das peças. Veja com a conjunção "que"

Polifonia em peças jurídicas e a conjunção “que”

Conheça nosso  instagram

Diz-se que um texto é polifônico quando nele aparecem várias vozes (poli = muitas; fonia = voz), e “vozes” no sentido de “textos”.

Quando um autor cita outro, por exemplo, temos caso de polifonia textual.

A polifonia ou intertextualidade é uma das características dos textos jurídicos, principalmente das peças.

Numa sentença, ao narrar no relatório as principais ocorrências havidas no processo, o juiz não raro é obrigado a se valer da polifonia, consignando os argumentos das partes.

Vejam:
⠀
⠀“Na contestação, o réu sustentou que o terreno foi invadido no ano de 1999…”.
⠀
Reparem que quando o juiz escreve na sentença um argumento da parte, ele está trazendo outra voz, outro texto para dentro do seu próprio texto.

Na frase acima, está trazendo o texto da contestação para dentro do texto da sentença.

Daí se falar em polifonia.

Peças elaboradas por advogados geralmente também são textos polifônicos.

Basta pensar que, ao apresentar uma defesa, o procurador do réu obrigatoriamente tem de fazer referência ao que foi dito pelo causídico do autor na petição inicial (outro texto).

Por exemplo:
⠀
⠀“Falta com a verdade o autor quando alega que não contratou os serviços que lhe foram prestados…”.
⠀
Uma vez que, no caso de peças jurídicas, a polifonia ou intertextualidade é representada muito mais por paráfrases do que por citações diretas, o redator tende a fazer períodos compostos por subordinação com orações substantivas desenvolvidas e, portanto, com a conjunção integrante “que” (alegou QUE, disse QUE, sustenta QUE), estrutura a qual, se não for prestada bastante atenção, pode acarretar falta de clareza ao texto e, tratando-se de peças de advogados, vir até a prejudicar a parte, conforme falarei A SEGUIR.​

O perigo das frases “o autor sustenta QUE” e “o juiz decidiu QUE”

Por serem polifônicas as peças jurídicas, é muito comum o emprego de estruturas como “o autor sustenta QUE”, “o juiz decidiu QUE”.

E aqui reside o perigo, pois muitas vezes nos esquecemos de repetir o “que” ou uma estrutura com ele na continuação da frase, ou repetimos a conjunção inadequadamente, deixando o texto obscuro ou com o chamado “queísmo”.

Leiam o seguinte trecho de uma contestação:
⠀
⠀“O autor sustenta que o réu deixou de pagar alimentos em 2017.

Ademais, o réu é sócio de uma grande empresa de tecnologia, de modo que possui, sim, condições de pagar os alimentos no valor que fora fixado.”
⠀
Até “2017” não há nada de errado.

Mas na continuação parece que o réu está depondo contra si próprio, dizendo que é sócio de uma grande empresa e que tem, portanto, condições de pagar os alimentos.

Para corrigir, basta fazer novamente uma construção com “que”.

Assim: “Ademais, alega que o réu é sócio…”.
⠀
Semelhante problema ocorre na frase abaixo.

Reparem a falta de “que” antes de “o INSS”:
⠀
⠀“A ré alegou que recebeu indenização do seguro obrigatório e o INSS lhe concedeu auxílio-doença desde a data do acidente até 11-8-2009.”
⠀
Agora leiam esta frase:
⠀
⠀“A ré declarou que seu marido é aposentado e que percebe proventos de aproximadamente R$ 3.000,00.”
⠀
O “que” antes de “percebe” está sobrando, pois quem percebe proventos não é a ré (a repetição do “que” leva a esse entendimento), mas o seu marido.

Estruturas polifônicas podem igualmente levar à repetição de “quês”, dando azo ao indesejado “queísmo”.

Notem:
⠀
⠀“O agravante afirmou que apresentou documentação que comprova que é agricultor e que não possui bens imóveis em seu nome.”

Que, que, que, que… Isso irrita o leitor.

Para eliminar o queísmo, uma dica é transformar as orações substantivas em reduzidas de infinitivo:
⠀
⠀“O agravante afirmou ter apresentado documentação que comprova ser agricultor e não possuir bens imóveis em seu nome.”
⠀
Melhorou, né?

Cuidado então com as estruturas polifônicas, pessoal. Revisem as peças! É na revisão que conseguirão ver se há “que” sobrando ou faltando.

Assista aos meus vídeos no YouTube.

Link Densustotositus togelDensus totototo slot

2021© Todos os Direitos Reservados | PROF. OSVACI JR. REDAÇÃO JURÍDICA.